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Uso de cinta para emagrecer na quarentena?

Atualizado: Ago 13




Temos observado que algumas modinhas de acessórios voltaram a se espalhar. Anúncios que vendem a ideia de uma transformação completa do corpo, promessas de eliminação de problemas, como as dores nas costas, e muitas pessoas em busca de soluções rápidas —e geralmente passivas— têm comprado cintas modeladoras e corpetes para usar em casa.


Há alguns anos, esses acessórios apareceram nos corpos de celebridades treinando e prometendo resultados milagrosos de emagrecimento e até de tratamento para dores. Por falta de orientação, muita gente passou a acreditar que não havia qualquer tipo de contraindicação no uso.


Juliana Satake, fisioterapeuta pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e especializada em saúde da mulher pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), observou um aumento do número de casos de pacientes com dores por estarem fazendo uso constante de cintas modeladoras.


Ela relata que há pessoas que, por falta de conhecimento, passaram a fazer uso da cinta 24 horas por dia, desde o início da quarentena: a pessoa acorda e dorme com a cinta, retirando-a apenas na hora do banho.

Satake atribui esse aumento de casos ao fato de que as pessoas têm trabalhado e vivido literalmente dentro de casa, e a privacidade do lar é cômoda por permitir o uso de cinta por horas seguidas. Vale ressaltar que uma pessoa que está fazendo isso desde o início da quarentena —há mais de 3 meses— já está em processo de perda de força e massa muscular (atrofia).


A cinta modeladora e como ela funciona

Há muitos séculos, a cinta surgiu para adequar o corpo da mulher ao que a sociedade esperava dela e do ideal de beleza da época. Nos séculos 17 e 18, formas arredondadas eram o ideal de beleza feminina. No começo do século 20, o padrão da beleza mudou e a pressão fez a mulher buscar se readequar à magreza e às curvas em busca de uma cintura fina.


A pressão exercida pela sociedade e pelo visual intangível levou muitas a se machucarem fisicamente a ponto de fraturar as costelas inferiores, além de diversos outros distúrbios psicossomáticos.


Para entendermos como a cinta funciona no corpo é preciso compreender o tecido adiposo, nossa popular ou impopular gordurinha. Ela corresponde a cerca de 20 a 25% do peso corporal das mulheres e de 15 a 20% dos homens.


Ao observá-la, imagine uma peça de picanha cheia de gordura em torno do músculo, claramente a consistência do músculo é firme e da gordura é moldável. O papel da cinta é comprimir justamente as áreas moldáveis para redistribuir a gordura em determinada região, proporciona uma silhueta desenhada e moldar o corpo. Algumas crenças e mitos surgiram com o passar do tempo. Vamos desmistificar alguns:


Cinta modeladora e corpete emagrecem

MITO. Ambos podem trazer o efeito estético momentâneo de afinar a cintura. O problema é que muitas pessoas ainda acreditam que seu uso constante pode levar ao real emagrecimento e à perda de gordura.


Uso de cinta e corpete turbinam os benefícios do exercício físico.

MITO. Celebridades aparecem na mídia fazendo o uso de cinta e inconscientemente (ou conscientemente) influenciam pessoas a fazer o mesmo para conseguir uma cintura mais fina. Porém, seu uso durante a prática de exercícios prejudica a saúde. A pessoa tem limitação da capacidade de expansão da caixa torácica, restringindo trocas gasosas eficientes. Além disso, a constrição excessiva pode restringir também a circulação sanguínea e linfática.

Se usado de forma constante ainda leva à fraqueza da musculatura da coluna e do próprio abdome, gerando um ciclo vicioso e de dependência constante da cinta. Isso é, você se torna refém da cinta compressiva por não se sentir seguro ao não usá-la ou por passar a ter dores nas costas quando não a usa. A fraqueza da musculatura predispõe a uma série de problemas como hérnia de disco, lesões ligamentares etc.


Dormir de cinta emagrece

MITO. Esse tipo de cinta não deve ser utilizado de forma constante. Da mesma forma, não é verdade que a cinta modeladora emagrece e o hábito não leva à eliminação de gorduras do corpo.


Trabalho sentado durante o home office e uso a cinta modeladora para prevenir dores

MITO. Muitos acreditam que a cinta melhora a dor nas costas. Mas o uso inadequado das cintas modeladoras traz vários prejuízos como: restrição da respiração, da circulação, da digestão e até eliminação inadequada de toxinas. Para quem sofre com dores nas costas, o uso da cinta pode passar a sensação de conforto, pois a musculatura fica relaxada. Agora imagine usar de forma constante? A musculatura fica enfraquecida

Como o enfraquecimento ocorre: imagine que seu corpo trabalha em modo econômico e, a partir do momento que um acessório passa a agir e fazer o papel da musculatura para estabilizar seu tronco, ele passa a entender que não há estímulo, não há necessidade de se manter funcionando e gastando energia.


Muita gente também pode acreditar que usar em home office pode trazer uma postura mais bonita. Caso você queira o efeito imediato a curto prazo, a cinta pode, sim, te ajudar, mas ela só fará sentido para a manutenção da sua postura caso você a use apenas como um lembrete que é você quem deve recrutar sua musculatura e voltar à posição inicial.

Por precaução, o ideal mesmo é investir em orientação especializada de um profissional de saúde para melhorar a postura.


Uso de cintas é sempre contraindicado

MITO. Há indicações específicas para o uso da cinta modeladora em pós-operatórios ou em puérperas, quando e se indicado. Ela irá ajudar a estabilizar cortes e evitar a abertura dos pontos, por exemplo. O uso da cinta em ocasiões específicas e pontuais também é possível. Mas evite usá-la por muitas horas do seu dia.


Vale lembrar que é importante elevar sua autoestima, mas mais importante é focar em saúde. Dica: não devemos fazer uso de roupas ou qualquer acessório apertado por longos períodos por afetar o funcionamento correto do corpo. Se a pessoa não se enquadra nessa situação e quer apenas conquistar um corpo mais bonito a longo prazo, a melhor alternativa é mudar hábitos com alimentação e atividade física.


*Colaboração de Renata Luri, fisioterapeuta doutora em ciências da saúde pela Unifesp e Juliana Satake, fisioterapeuta especializada pela Unicamp.

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